Mãe: Vi o teu tio hoje. Eu: Foi? Mãe: É... Perguntou-me se estava tudo bem contigo, como ia a universidade, se tinhas arranjado por lá um rapazito... Eu: O costume (risos) Mãe: Devias ter visto a cara dele quando lhe disse que namoras. Eu: Então? Mãe: Disse que eras muito nova para compromissos e que nesta idade devias era viver a vida. Eu: Mas quando se tem namorado não se vive? (risos) Mãe: Já está fora de moda. Ainda me lembro da Idade da Pedra, quando andava no Liceu, em que as pessoas ainda andavam de mãos dadas, diziam que gostavam umas da outras e namoravam. Agora "andam", seja lá o que isso for. Hoje em dia toda gente tem amigos e colegas, já ninguém tem propriamente namorados, mesmo que estejam sempre a ir para a cama com eles. (suspira) As pessoas já estão não estão habituadas. É a Idade da Indecência (risos).
Descobri hoje, ao arrumar a gaveta da comoda, que tenho vernizes para as unhas suficientes para pintar uma estrutura do tamanho do Pavilhão Atlântico. E pior, tenho um baton para cordenar com cada um deles. Quer dizer, gastei eu uma pipa de massa naqueles carrinhos práticos para arrumar a maquilhagem, com compartimentos para colocar cada uma das coisas e quando dou por mim estou precisar de um barril de petróleo só para arrumar batôns e vernizes, um de cada por cada tonalidade reconhecida pelo espectro de cores (e aposto, que algumas ainda por identificar).
-A beleza não é fundamental. -Hum, tá... -A sério, bom é ser uma pessoa porreira, simpática, divertida... -Hum-hum... -Não estás a entender, o importante é ser uma pessoa inteligente, interessante, dada... -Dada eu sou... O que eu não sou é comida.
Ethel: Nas relações o tempo é relativo: um amor eterno chega a durar seis meses.
Evey: (risos) Não, o amor dura para sempre. As pessoas é que dizem amar por tudo e por nada.
Ethel: Como assim?
Evey: Amamos os sapatos novos, os dias de sol, os saldos...
Ethel: (risos) E qual é o mal disso? Eu amo os meus Ferragamos!
Evey: O problema é esse mesmo! Os sapatos novos daqui a uns tempos ficam velhos e atiramo-los para o fundo do armário. Ou passam de moda e todo o dinheiro que gastamos neles nos parece um desperdício.
Ethel: Pois, acho que nisso tens razão, as relações às vezes são como os sapatos. Por mais que magoem os pés continuamos a andar com eles porque são lindos e nos sentimos fantásticas com eles mas no final do dia restam só as dores nos pés.
Evey: Não acredito que estamos a comparar o amor a sapatos (risos). Não podes ser assim tão reducionista, as coisas não são assim tão simples. O amor não é linear.
Ethel: Tu é que começaste!! (risos)
Evey: Não, eu disse que dizer que amamos coisas que se estragam, se partem, se perdem é que dá uma ideia errada do amor.
Ethel: uhuu, lá estás tu... (risos) Agora eu não amo os meus sapatos, é isso?
Evey: Não podes amar algo que te pertence.
Ethel: O amor é isso mesmo, desejo de posse.
Evey: O amor é uma necessidade de entrega.
Ethel: Necessidade que o outro se entregue, isso sim.
Evey: Também... Mas não por posse mas porque se deseja uma unificação por inteiro.
Ethel: Perdi-me completamente desse teu raciocinio (risos)
Evey: Olha, às vezes é bom baixar as defesas e deixar que te tenham na mão. Por o medo de lado, amar e deixar que te amem.
Ethel: Para ser atirada para o fundo do armário...
Evey: (risos) Sim, às vezes é o que acontece.
Ethel: As pessoas relacionam-se porque têm medo de ficar sozinhas, têm pavor da solidão.
Evey: (risos) Então estás aqui comigo porque não gostas de estar sozinha?
Ethel: Também... Nenhuma relação é completamente desinteressada. Esperamos sempre algo em retorno, seja amizade ou amor.
Evey: Agora fui eu que me perdi... Como assim?
Ethel: Esperamos sempre algo de quem nos relacionamos. Esperamos que retribuam, que nos apoiem, nos façam companhia... Nem que seja para nos sentirmos úteis, o altruismo é uma utopia.
Evey: Às vezes só queremos fazer outra pessoa feliz!
Ethel: Nem que seja para depois nos podermos lamentar da nossa própria infelicidade e afogar em auto-piadade, nãoé?
Evey: Sim, de certa forma, concordo contigo...
Ethel: Vês? Essa de amar para sempre incondiconalmente é um conto de fadas que te metem na cabeça (risos). O amor é uma fuga à solidão.
Evey: Ui, de onde é que isso saiu agora? (risos)
Ethel: O amor é uma desculpa. Desculpa para se casarem e ficarem o resto dos dias a suportarem-se um ao outro só para não estarem sozinhos.
Evey: Isso não é amor, é cobardia. Amar exige coragem!
Ethel: Coragem? (risos)
Evey: Sim, coragem para ficar sozinha se um dia a pessoa que amamos for embora.
Ethel: Oh, ai procura-se outra para amar e o ciclo continua.
Evey: É isso que não entendes... O amor acontece, não se procura, não se econtra. Preenche-te um vazio que nem sabias que tinhas.
Ethel: (risos) Cala-te.
Evey: (a cantar) Love is a many splendored thing
Ehtel: Cala-te!!!!! (risos)
Evey:(ainda a cantar) Love lifts us up where we belong, all you need is Love
Ethel: (risos descontrolados) Cala-te!!
Evey:(a cantar e a estalar os dedos) All you need is Love...
Ethel: (entre risos tapa a boca de Evey com a mão) Traga-me a conta por favor!
Evey: (em plenos pulmoes articulando por baixo da mão de Ethel) ooooll iuu nniiiid is wooovee tuff tu tu ru tuufff